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O que é bom para enxaqueca: o que funciona e o que só disfarça

A pergunta esconde duas perguntas, e elas têm respostas diferentes.

Quem pesquisa o que é bom para enxaqueca quase sempre está perguntando duas coisas ao mesmo tempo, sem perceber. Uma é: o que faz esta dor passar hoje. A outra é: o que faz eu ter menos dor no mês que vem.

São perguntas diferentes, e a confusão entre elas explica boa parte das enxaquecas mal tratadas. O remédio que corta a crise não reduz o número de crises. E o tratamento que reduz o número de crises não serve para o dia em que a dor já está instalada. Quem só tem a primeira metade fica preso num ciclo que parece tratamento, mas é só contenção.

O que corta a crise que já começou

Aqui entram três grupos, e a escolha depende da intensidade das suas crises e do que você já testou.

Dois erros derrubam o resultado com mais frequência do que a escolha da medicação. O primeiro é tomar tarde: a crise de enxaqueca tem uma janela em que responde bem, e depois dela a mesma dose rende muito menos. O segundo é tomar meia dose, por medo de exagerar — e aí não funciona, a dor cresce, e vem uma segunda tomada que já chega atrasada.

Se você costuma dizer que “já tentou de tudo e nada funciona”, vale checar antes se o que você tentou foi tomado cedo e em dose plena. Muita medicação é descartada como ineficaz sem nunca ter sido usada como deveria.

O que reduz o número de crises

Esta é a parte que a maioria das pessoas nunca chegou a fazer — e é ela que muda a vida de quem tem crise frequente. O objetivo aqui não é o alívio de hoje: é você ter menos dias de dor daqui a três meses.

O tratamento preventivo é um remédio de uso diário, escolhido conforme o seu quadro e o resto da sua saúde. Existem várias classes possíveis, e a escolha leva em conta o que mais te incomoda além da dor — sono, ansiedade, pressão, peso. Um preventivo bem escolhido costuma resolver duas coisas ao mesmo tempo.

Duas expectativas precisam ficar claras desde o começo. Preventivo não age na primeira semana: leva algumas semanas para mostrar o efeito, e o julgamento honesto de se funcionou ou não se faz depois de dois a três meses na dose adequada. E a primeira escolha nem sempre é a certa — isso é normal e faz parte do método, não é sinal de que o seu caso não tem solução.

Fora dos remédios, o que tem efeito real sobre a frequência é menos glamouroso do que a internet promete, e mais eficaz: regularidade de sono, incluindo no fim de semana; atividade física aeróbica constante; refeições e hidratação sem grandes buracos no dia. Não é conselho genérico de saúde — variação de rotina é um dos gatilhos mais consistentes da enxaqueca.

Alguns suplementos aparecem na literatura como opção preventiva de efeito modesto e risco baixo. Podem entrar como apoio, e em alguns casos valem a tentativa, mas não substituem o tratamento quando as crises são frequentes. Vale conversar sobre eles com quem te acompanha, e não decidir sozinho pela embalagem.

O que não faz nem uma coisa nem outra

Existe um terceiro grupo, e ele é o mais comum de todos: o que dá a sensação de estar tratando sem tratar nada.

Como saber em qual dos dois você está

Dois números respondem quase sozinhos, e quase ninguém chega à consulta com eles: quantos dias por mês você sente dor, e quantos dias por mês você toma alguma coisa para ela.

De modo geral, dor ocasional e que responde bem à medicação se resolve tratando a crise. A partir de quatro dias de dor por mês, ou quando a crise derruba o seu dia mesmo sendo pouco frequente, a conversa sobre tratamento preventivo passa a fazer sentido. E quando a dor ocupa metade do mês, tratar só a crise praticamente não tem como dar certo.

O problema é que esses dois números são exatamente os que a memória distorce. Na consulta, a resposta costuma ser “direto” ou “quase todo dia”, e nenhuma das duas dá para trabalhar. Anotar cada crise no momento em que ela acontece resolve isso — é para isso que existe o Diário de Dor, que é gratuito e monta o resumo para você levar.

Com esses números na mão, a consulta deixa de ser sobre o que você acha que tem e passa a ser sobre o que fazer. É assim que o acompanhamento funciona aqui: a partir do seu padrão, não de uma receita padrão.

Dr. Gabriel Krauss Médico de Família · dor crônica · CRM-SP 197.262
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