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Como aliviar uma crise de enxaqueca

Na crise, o momento e a dose pesam tanto quanto a escolha do remédio.

Quem procura como aliviar a enxaqueca geralmente está com dor agora, ou acabou de sair de uma crise e não quer passar por outra igual. Por isso vou direto ao ponto: a crise de enxaqueca tem tratamento eficaz, e a maior parte das falhas no alívio não vem do remédio errado, vem do remédio certo usado do jeito errado.

Este texto explica o que funciona, por que o momento importa tanto e quando a crise deixa de ser assunto para casa. Ele não substitui a orientação de quem acompanha você: a escolha da medicação depende da sua saúde como um todo, inclusive do coração e do estômago.

O momento conta mais do que parece

A crise de enxaqueca não é uma dor que fica parada esperando o remédio. Ela evolui: começa leve, cresce, e em poucas horas o sistema nervoso entra num estado em que qualquer estímulo dói mais. Quanto mais avançada a crise, menos ela responde à mesma medicação.

Por isso as diretrizes insistem no tratamento precoce: usar a medicação da crise quando a dor ainda está leve, e não esperar para ver se ela vai virar uma crise de verdade. Quem tem enxaqueca há anos geralmente sabe reconhecer a própria crise logo no começo. Essa percepção é uma ferramenta, e vale usá-la.

O outro erro frequente é a dose. Por receio de exagerar, muita gente usa meia dose, a dor continua crescendo e a segunda tomada já chega fora da janela. No fim, a pessoa usou mais remédio e teve menos alívio.

Antes de concluir que um remédio “não funciona para você”, vale lembrar quando ele foi usado e em que dose. Muita medicação boa é descartada sem nunca ter sido testada como deveria.

O que a evidência mostra que funciona

As grandes revisões que comparam os tratamentos da crise, reunindo mais de uma centena de estudos com dezenas de milhares de pessoas, chegam a conclusões bastante consistentes.

Nenhuma dessas opções é isenta de efeitos colaterais. Os triptanos, por exemplo, causam com mais frequência sensação de cansaço, tontura ou aperto no peito passageiro, e não são indicados para quem tem certas doenças do coração e dos vasos. É por isso que a escolha precisa ser feita com alguém que conhece a sua história.

A náusea também é parte da crise

Muita gente trata a dor e ignora o enjoo, como se fosse um detalhe. Não é. Durante a crise, o estômago pode esvaziar mais devagar, e o remédio tomado por via oral é absorvido pior. A náusea também faz muita gente adiar a medicação, e aí ela chega tarde.

Os antieméticos, remédios contra náusea, têm um papel duplo: aliviam o enjoo e, alguns deles, ajudam também na própria dor. Uma revisão de estudos com mais de 1.900 pacientes mostrou que um desses antieméticos reduz tanto a dor quanto a náusea na crise, com efeitos colaterais em geral leves.

Além do remédio, o próprio corpo costuma pedir o que ajuda: luz e barulho incomodam mais durante a crise, e um ambiente escuro e silencioso torna a espera mais suportável. Existem também aparelhos de estimulação elétrica de uso externo, sem remédio, com recomendação ainda fraca nas diretrizes internacionais. Podem ser úteis para quem não tolera as medicações, mas não substituem um plano de crise.

Quando a crise pede pronto-socorro

Algumas crises não cedem com o que se tem em casa, principalmente quando o vômito impede qualquer remédio por boca. No pronto-socorro existem tratamentos injetáveis com boa evidência, incluindo antieméticos, anti-inflamatórios e bloqueios anestésicos de nervos da cabeça. A diretriz americana mais recente, em contrapartida, recomenda não usar opioide injetável para tratar a crise de enxaqueca.

Procure atendimento imediato, sem esperar, se a dor vier de forma diferente das suas crises habituais:

Quando aliviar a crise não é suficiente

Tudo o que está acima resolve o dia de hoje. Não resolve o mês. E existe um limite claro para quanto a estratégia de só tratar a crise aguenta.

Quando o remédio da crise passa a ser usado muitos dias por mês, ele começa a jogar contra: o uso frequente de analgésicos pode aumentar o número de dias de dor, e a pessoa entra num ciclo em que o próprio remédio mantém a dor. A saída, nesse caso, não é um analgésico mais forte. É reduzir o número de crises, com tratamento preventivo e ajuste ao longo do tempo.

Um bom plano de crise costuma estar escrito: qual medicação, em que dose, em que momento, o que fazer se a primeira tentativa não resolver e qual o limite de dias por mês. Se você ainda não tem isso, ou se as crises estão ocupando cada vez mais espaço na sua rotina, vale conversar com um médico que acompanhe enxaqueca de perto. É assim que o acompanhamento funciona aqui: a partir do seu padrão de crises, com revisão do plano até ele funcionar para você.

Referências

  1. Karlsson WK, Ostinelli EG, Zhuang ZA, et al. Comparative effects of drug interventions for the acute management of migraine episodes in adults: systematic review and network meta-analysis. BMJ. 2024. PMID 39293828
  2. Gartlehner G, Dobrescu A, Wagner G, et al. Pharmacologic Treatment of Acute Attacks of Episodic Migraine: A Systematic Review and Network Meta-analysis for the American College of Physicians. Annals of Internal Medicine. 2025. PMID 40096693
  3. Ornello R, Caponnetto V, Ahmed F, et al. Evidence-based guidelines for the pharmacological treatment of migraine, summary version. Cephalalgia. 2025. PMID 40277321
  4. Robblee J, Minen MT, Friedman BW, et al. 2025 guideline update to acute treatment of migraine for adults in the emergency department: The American Headache Society evidence assessment of parenteral pharmacotherapies. Headache. 2026. PMID 41321235
Dr. Gabriel Krauss Médico de Família · dor crônica · CRM-SP 197.262
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